Entrevistas

entrevista com artista norte-americano Gary Panter em seu estúdio no brooklyn, em nova york. Pioneiro do ‘punk graphics’, Panter foi diretor de arte do show Pee-wee’s Playhouse e publicou trabalhos brilhantes como ‘Jimbo: Adventures in Paradise’, ‘Cola Madness’ e o pequeno notável ‘The Asshole’ – que será publicado no brasil pela A Bolha com tradução de Daniel Pellizzari.

Em seu estúdio ele faz desenhos, pinturas, esculturas, comics e é conhecido por seu talento no churrasco e por gostar de shows de luz, música psicodélica e literatura pós-moderna.

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  • entrevista Nathanaël

    Postado em: Entrevistas | Data: 28 dez 2011 | Autor: admin

    foto: Nathaniel Feis/2011

     

    entrevista de Luciana RomagnolliJornal O Tempo 24/12/11

     

    “Eu quero o que nenhuma linguagem contém”. Com essa frase, a escritora canadense Nathanäel, radicada nos Estados Unidos, define a si mesma em seu blog (polysemique.blogspot.com).

     

    Professora da Escola do Instituto de Arte de Chicago, já premiada pela Academia de Letras de Quebéc, ela deixou para trás o nome de batismo, Nathalie Stephens, e adotou aquele que intitula seu livro, “Je Nathanaël”, inspirado em um personagem do escritor francês André Gide (1869-1951). Na entrevista abaixo, ela defende a obra de Hilda Hilst, de quem é tradutora, e comenta relações entre corpo e linguagem.

     

    Você está trabalhando em uma tradução de “A Obscena Senhora D”, de Hilda Hilst. O que lhe interessa na literatura de Hilst? Você vê afinidades com a sua literatura?

    Hilst, para mim, é uma escritora que realmente escreve o corpo – em vez de ser como a maioria, que teoriza sobre a escrita do corpo, permanecendo enquadrada em categorias fixas. Hilst é imprudente, crua, elegante, prejudicada e maligna. Na primeira vez que li o “A Obscena Senhora D”, havia passado muito tempo sem ler livros. Sou uma leitora impaciente e, como resultado, leio pouco. Contudo, me pareceu que eu poderia ler aquele livro pelo resto da vida, e que Hilst parecia estar fazendo algo que os outros apenas diziam que estavam fazendo. O trabalho dela, para mim, vai além de trabalhos como os de (Clarice) Lispector, que é, ou foi, muito popular nos EUA e na França. Meu primeiro pensamento, depois de ler Hilst, foi que isso era um erro mortal. Por mais que gostasse de “A Hora da Estrela”, ele não se arrisca, e nem me levou a me arriscar como leitora, da forma que Hilst o faz. Com relação a afinidades entre nossos trabalhos, seria muita presunção da minha parte afirmar isso. Sou uma grande admiradora de seu trabalho.

     

    A certa altura do livro “Je Nathanaël”, você escreve que “o corpo humano passa por uma crise” e “o sexo está mergulhado no hermafroditismo”. Bem, o livro parece trabalhar na tensão entre corpo e linguagem, arte e desejo. Esses conceitos estão em crise?

    Espero que estejam. Esses sentidos continuam a ser suprimidos pelos discursos na América do Norte. Isso se aplica até mesmo àqueles que dizem desafiar o controle dos sentidos pelas estruturas acadêmicas e corporativas. Quando escrevi “Je Nathanaël”, o que já faz dez anos, essa crise, para mim, era mais articulável a partir da noção de traduzibilidade, que carrega uma relação discutível com o hermafroditismo (em que a sobreposição e o rompimento de corpos e linguagens claramente delineados provoca estados desagregados com a marca do desejo). Isso refuta qualquer possibilidade de origem. “Je Nathanaël” não pode reivindicar para si nenhuma origem, pois o texto surgiu de ao menos duas línguas de uma só vez – francês e inglês. Isso sem falar da ausência de um corpo que está sempre à beira de constituir a si mesmo. Essa crise serve como uma salvaguarda para um tipo de vigilância sensorial, que nós exterminamos, por uma morte sistemática dos sentidos e desejos.

     

    Rachel Gontijo Araujo, editora d’ A Bolha, disse que você “desafia a linguagem enquanto corpo”. Pensando naquelas tensões mencionadas antes, você poderia dizer o que significa, para você, tratar a literatura como fisicalidade?

    A banalidade gritante da divisão cartesiana entre corpo e mente pode ser instrutiva aqui; muitos dos chamados pensadores “pós-estruturalistas” resistem à noção de linguagem como algo acidental, um a priori da sensibilidade. Claro, eu discordo enfaticamente desse tipo de interpretação simplista que, para mim, é como um extermínio do pensamento. Mas não sou alinhada a nenhuma escola de pensamento ou tendência filosófica ou poética. Temo qualquer tipo de adoção de sistemas e prefiro algo mais desengajado e aleatório. Isso significa que, cada vez, é preciso encontrar um caminho para o corpo na linguagem. O que posso dizer do sentido físico de um texto é melhor respondido pelo próprio texto.

     

    Como essa fisicalidade se relaciona com a pontuação (por exemplo, a ausência de vírgulas) e com o modo como você arranja o texto em cada página de “Je Nathanaël”?

    A quebra da autoridade sintática acompanha o desmembramento do corpo com “gênero” e “sexo” no texto. “Je Nathanaël” é um texto muito diferente em inglês e em francês. E estou curiosa para saber o que acontece com o texto em português e em búlgaro – as outras duas línguas para as quais foi traduzido. Línguas românicas são tão determinadas pelo gênero que iniciar esse trabalho de hermafroditizar o francês (um dos impulsos iniciais de todo o projeto) exigiu uma ação violenta contra as estruturas gramaticais francesas. Isso significou aniquilar o sujeito, como na seção com ausência de pronomes. Entretanto, em inglês, acontece algo mais. Como a língua inglesa é menos marcada pelo gênero, outras estratégias precisaram ser empregadas.

     

    Em termos gerais, quão bem o sexo é representado na literatura norte-americana?

    Minha bagagem literária norte-americana é pequena – além disso, não sei dizer muito bem o que é, de fato, a literatura norte-americana. Nem sei dizer se isso realmente existe, há muitos americanos. Ainda assim, sinto que as literaturas norte-americana e canadense, apesar de não serem equivalentes ou intercambiáveis, sofrem de uma tensão entre obscenidade púdica e exibicionista. Nos Estados Unidos, se não estamos ocupados culpando o corpo por seus excessos, estamos querendo revolucioná-lo. Cada extremidade parece perdida em um paradoxo de dependência. Prefiro não pensar sobre isso.

     

    Aposto que você não gosta de responder essa pergunta, mas conte-nos: quem é Nathanël?

    Tem razão, detesto responder essa pergunta. Afinal, a resposta está sempre mudando. Quem Nathanaël era em 2003, 2006 e é, agora, em 2011, é diferente novamente e novamente. Ele começou como um personagem não-realizado de “Les Nourritures Terrestres”, de André Gide. Ele entrou em mim como uma tradução. Ele pertenceu a ninguém, certamente não ao livro. Então, quem pode dizer? Nathanaël é um nome frequentemente impronunciável.

     

    Je Nathanaël

    R$31

    tradução Thiago Gomide Nasser

    88 páginas

    2011


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  • O Globo | Rui Tenreiro

    Postado em: Entrevistas» Notícias | Data: 12 dez 2011 | Autor: admin

    De Moçambique para o Brasil, via Suécia

    por Telio Navega

     

    Ao toparem com uma imensa e desconhecida criatura morta em seu caminho, dois andarilhos carecas, aparentemente iguais, mas diferentes (um deles usa cachecol), interrompem a viagem para comunicar o acontecido aos habitantes da aldeia mais próxima. A partir daí muita coisa estranha começa a acontecer na atraente história em quadrinhos “A celebração” (A Bolha Editora, cor, 108 pgs., R$ 39.90), escrita e ilustrada por Rui Tenreiro, que nasceu e cresceu em Maputo, Moçambique, e hoje vive em Estocolmo, Suécia.

    Influenciado por nomes tão diferentes entre si como Aki Kaurismäki, Hayao Miyazaki, Akira Kurosawa, Pieter Bruegel e Moebius, Tenreiro conta que a ideia do álbum – que tem “participação especial” de Antoine de Saint-Exupéry em algumas páginas – surgiu a partir de sonhos que teve e de músicas que ouviu. O resultado é bem diferente do que estamos acostumados a ver nos quadrinhos publicados no Brasil, e não revela o país do autor, muito menos aquele que ele escolheu para morar.

    A Escandinávia foi um choque cultural – explica o autor moçambicano. – A Suécia é quase o oposto de Moçambique. No entanto, a primeira vez que saí da África foi para viver em Portugal. Pensava que seria fácil, pelo português ser a minha língua materna, mas o choque cultural foi bastante grande.

    Segundo Tenreiro, a cena profissional de quadrinhos (chamados de quadradrinhos por lá) em seu país de origem serve, em sua maioria, mais como uma ferramenta educativa, no campo da política ou da saúde. Não há mercado para álbuns de ficção. Diferentemente da Suécia:

    Aqui os quadradinhos são mais voltados para a sociedade e a sexualidade. E são frequentemente autobiográficos e realistas. Há também muito mais mulheres desenhistas aqui na Suécia, o que enriquece o panorama cultural. Na Suécia há muito mais dinheiro para a cultura. Em Moçambique, as artes são tidas como última prioridade num país extremamente pobre, o que é compreensível. Mesmo assim, penso que existe uma visível falta de interesse em artes e cultura por parte do governo atual.

    Detalhe de “Lanternas de Nedzu”

    Depois de “A celebração”, Tenreiro publicou um livro chamado “Museu”, em que ele diz ter trabalhado, como nos jornais antigos, com o espaço da página da mesma forma que os designers do final do século XIX e início do século XX faziam.

    - Atualmente estou desenhando ”Lanternas de Nedzu” – revela o ilustrador, que acaba de concluir um mestrado na universidade de Konstfack, em Estocolmo. - É um romance e uma história de terror sobre um homem que se apaixona por um caranguejo. Apresenta uma mistura de elementos japoneses com finlandeses (como o festejo do Bon e do Kekri). O livro terá trilha sonora, composta por Tiago Correia-Paulo.

     

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  • A Bolha Editora: relação visceral

    Postado em: Entrevistas | Data: 29 nov 2011 | Autor: admin

     

    © riocomicon 2011

    por Pedro Brandt, Revista Raio Laser

    Entrevista com Rachel Gontijo

    Você é brasiliense. Como a cidade te influenciou no gosto pelas artes?
    Sim, eu nasci em Belo Horizonte, mas sou brasiliense. Demorei muito tempo para me sentir confortável suficiente na minha relação com Brasília para poder afirmar isso. Não tem como um lugar onde se vive tanto tempo não influenciar de alguma forma. Mas para ser sincera, acho que Brasília me influenciou pelas próprias limitacões — da cidade e das minhas limitações em relação à cidade. Aqui se vive numa espécie de estética da imposição e/ou imposição estética. E são justamente esses movimentos de imposição que não me interessam nas artes, e que tento combater diariamente, tanto no meu trabalho de editora como na minha própria escrita.

    Como tem sido o contato com as editoras estrangeiras? E o que é mais difícil nessas negociações?
    Meu contato é quase que só diretamente com autores. Eles apostam em mim e eu neles. Foi assim em todos os casos. Tanto com Nathanel, Douglas A. Martin, Gail Scott, Bhanu Kapil, como com Federico Lamas, Rui Tenreiro, Marc Bell, Heather Benjamim, Christopher Forgues e Matthew Thurber. O que faz todo processo ser muito mais prazeroso. É realmente uma parceria. Mesmo no caso da Picturebox, liderada pelo grande Dan Nadel (editor do Thurber e Christopher “CF” Forgues), a relação acaba sendo direta com os autores. Mais difícil e desinteressante é a negociação com agentes. É um diálogo, na grande maioria das vezes, baseado em números, seco. Então tento evitar.

    Você vai lançar livros da Hilda Hilst nos Estados Unidos. Come você percebe o interesse de literatura latinoamericana por lá?
    Eu não acho que tenho conhecimento suficiente para falar sobre o interesse na literatura latinoamericana como um todo (na América do Norte). Confesso que tenho uma certa dificuldade com esse termo, “latinoamericano”, até pelo próprio entendimento norteamericano do que vem a ser América Latina e o latinoamericano, o que acaba quase por se transformar numa categorização. O que posso dizer é que muito pouco se conhece da literatura brasileira por lá. Não tenho medo nenhum em afirmar que a literatura brasileira, infelizmente, é inexistente na América do Norte. A verdade é que, tirando alguns poucos, sempre mencionados autores brasileiros, somos quase que invisíveis no norte. Mas acredito sim que hoje se tem mais espaço para se mudar essa realidade, para que o norteamericano se deixe ser mais curioso em relação a outras linguagens. E não acredito em melhor abre-alas que Hilda Hilst para forçar ainda mais essa abertura.

    Como foi o seu contato com essa produção mais alternativa de quadrinhos?
    Eu comecei a prestar mais atenção — pelo menos com mais consciência — em quadrinhos quando estava indo embora de Chicago (2009) e me preparava para fazer uma viagem de trem com a artista Stephanie Suaer, de Chicago para Sacramento, Califórnia. A viagem duraria dois dias. E me lembro que nós passamos na Quimby’s e eu comprei uma série de livros, incluindo A drifting life (do Yoshihiro Tatsumi). Até então minha interação mais direta com narrativas se dava, pelo menos de maneira mais linear, pela escrita. Não acho que li um só quadrinho nessa viagem, mas logo depois quando voltei ao Brasil devorei um atrás do outro e continuei a pesquisar, ler, ler e pesquisar, e fiquei impressionada com as possibilidades de linguagem que a narrativa visual traz. Logo depois, durante uma residência artística em Nova York, comecei a pesquisar mais a fundo e fui encontrando uma série de trabalhos extraordinários. Eu sempre gostei muito de pesquisar, cavucar. Me ajuda a prestar menos atenção à insônia.

    E os interessados em entrar para o catálogo da Bolha, como fazem?
    No momento, como sou só eu tocando o projeto, e temos uma série de outros livros já programados para publicação, não estou podendo aceitar originais para avaliação. Mas espero em breve poder começar a receber originais, dar a devida atenção a novas possibilidades de publicação. E quem sabe contar também com apoio de outras editoras (leia-se: coedições).

    Quem você gostaria de ver publicado pela Bolha (brasileiro e estrangeiro)?
    Leando Mello, Mark Beyer, Virgilio Neto, Seth, Maura Lopes Cançado, Suzanne Jacob, John Keene, Claude Cahun. Mais Bhanu Kapil, mais Nathanel, mais Douglas A. Martin. A lista é grande e continua crescendo.

    O leitor brasileiro é careta? Ou desinformado? Ou, pior ainda, desinteressado?
    Eu acho que algumas editoras brasileiras é que são caretas e não têm o devido respeito, não dão o devido crédito ao leitor brasileiro.

    Você já publicou alguma coisa sua? O quê?
    Sim, tenho algumas partes de um manuscrito (primary anatomy) ainda em progresso em alguns jornais literários norteamericanos e algumas outras partes desse mesmo manuscrito que serão publicadas em 2012 na Mandorla (setembro) e na Evening will come(fevereiro). Espero poder finalizar esse manuscrito até o começo do ano que vem, mas ter tempo para me permitir escrever tem sido difícil.

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