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  • A Bolha Editora, aposta que vale o risco|Rio Comicon

    Postado em: Notícias | Data: 25 jan 2012 | Autor: admin

    por Bruno Dorigatti

     

    Próximo à região portuária e à rodoviária Novo Rio, que vem sendo toda reformada e reformulada para os megaeventos que a cidade recebe nos próximos anos, uma antiga fábrica de chocolate renasce, produzindo novos biscoitos finos. Não se trata de doces, mas a menção à frase de Oswald de Andrade – “as massas ainda comerão os biscoitos finos que fabrico” – bem pode servir para as diversas atividades reunidas nos mais de 20 ateliês e estúdios de artistas que vêm ocupando o espaço há alguns anos, com trabalhos os mais variados entre escultura, pintura, fotografia, videoarte, restauração, colagem, desenho, literatura e quadrinhos.

    No terraço, em uma casa que anteriormente servia de pombal para centenas, talvez milhares de aves, de onde se tem mais uma das acachapantes vistas do Rio de Janeiro e da baía de Guanabara, surgiu umas das melhores novidades do nosso aquecido mercado editorial. A casa, toda reformada, é a sede d’ A Bolha, excelente editora de uma pessoa só, no caso, da mineira radicada por muitos anos em Brasília Rachel Gontijo. Com os cabelos sempre ao vento, óculos redondos e uma fala empolgada, Rachel imaginou e criou uma editora com perfil que não havia por aqui. “A ideia inicial era abrir uma editora para fazer uma ponte entre literatura independente norte-americana e a literatura brasileira. Ficava impressionada como não se publicava nada fora do que a gente pode chamar de óbvio. Ganha-se um prêmio lá e então se publica aqui. Não é um mercado que está procurando coisas, ou se alimentando, vendo o que quer comer lá fora. Ele é alimentado, ditado pelas regras de outros mercados, onde muitas vezes não se conhece a obra, mas vai publicando porque ganhou prêmios”, começou falando Rachel, em uma bela tarde de sol na sede d’A Bolha em novembro passado.

    Antes de voltar ao Brasil, ela estava estudando e trabalhando nos Estados Unidos. A ideia de criar o seu próprio emprego neste retorno ao país natal foi para continuar a fazer o que gostava e ainda ter algum tempo para continuar escrevendo – o que a crescente demanda de trabalho ainda não permitiu a contento.

    “Não existe esta coisa da pesquisa, de algo que você lê, acha extraordinário e resolve editar, publicar isso. Aí que começou a ser solidificada a ideia d’ A Bolha. Com um pouco mais de tempo, por razões que não sei muito bem como e quando aconteceu, ia fazer uma viagem de trem com a artista Stephanie Sauer – que me ajudou muito no começo disso aqui – e antes fui na Quimby’s, uma loja de Chicago. Uma série de artistas que hoje em dia são famosos começaram mandando xerox para lá, para vender. Comecei a comprar coisas pra ler nessa viagem de trem que ia durar dois dias. E não li nada na viagem, mas logo depois estava voltando para o Brasil e chegando aqui comecei a ler, a comer esse material e meu olhar se abriu de uma forma. Achei interessante também trazer esse tipo de narrativa”, conta ela referindo-se ao que chama de narrativa silenciosa, e suas extraordinárias camadas de linguagem. “Os modos diferentes de se habitar, pensar a linguagem. De não se pensar a linguagem”, fala ela sobre o material de excelência que A Bolha disponibiliza para a venda no Brasil por um preço acessível, se comparado aos valores para importar estes mesmos álbuns.

    O norueguês Jason, por exemplo, é um cujo belíssimo trabalho em preto e branco, geralmente sem diálogos e balões, de humor mordaz e muitas vezes irônico, está lá com Almost silent, reunião de algumas de suas curtas histórias publicadas nos últimos anos pela Fantagraphics. The arrival, narrativa silenciosa do chines Shaun Tan e editada no Brasil em 2011 pela SM, eleito entre os melhores do ano passado, também está lá em sua versão norte-americana, base para a edição nacional e praticamente pelo mesmo preço. Ou aindaThe blot, de Tom Neely, sobre um homem comum, que lida com as consequências de um relacionamento fadado ao fracasso e é perseguido por uma misteriosa mancha preta, ganhador do Ignatz Award 2007 como “Promising New Talent”; h Day história oblíqua e silenciosa de Renée French sobre suas terríveis enxaquecas; The Number 73304-23-4153-6-96-8, terrificante história em pb do suíço Thomas Ott, sobre um condenado a morte que deixa o número do título anotado em um pequeno papel, encontrado por um carcereiro que resolve descobrir o seu significado. E ainda há incríveis obras, como as de Seth, George Sprott: 1894-1975Wimbledon Green, ou Exit Wounds, da israelense Rutu Modan.

    Mas o mais animador é que A Bolha é uma casa editorial e vem publicando excelentes títulos, seja de quadrinhos que fogem um pouco do padrão que vemos por aqui, além de excelentes nomes da nova geração do que poderíamos chamar de escritores independentes norte-americanos. “Foram livros que li e gostei bastante. São livros que burlam ou dão uma acinzentada entre aquela linha do que a gente considera quadrinhos e arte. É que, infelizmente, já se definiu tanto e se reduziu tanto, por muito tempo, o que é quadrinho, que acho interessante isso. Não é uma redefinição, na verdade é você dar uma chacoalhada nessas noções de categorização entre o que é quadrinho e o que é arte. Por isso que venho chamando de narrativa visual, para tirar um pouco destas pré-concepções, do que é uma coisa e do que é outra”, conta Rachel.


    Estreia

    Entre os primeiros lançamentos, que saíram na mesma época do Rio Comicon 2011, em outubro passado, onde A Bolha participou com uma mesa independente, estão Powr Mastrs, de CF, e 0-800-Ratos, de Matthew Thurber. “Quando olhei primeiramente não sabia muito bem o que esperar.

    Comecei a ler e achei, tanto o traço como a própria arte, extraordinários. Uma coisa que foge do que você geralmente lê. E queria começar com algo que saísse em volumes, de forma regular. Já que não existe mais este tipo de quadrinho em banca, onde você vai com regularidade, você segue a editora, com estas publicações seriadas.” O segundo volume de ambos está programado para 2012.

    Outra obra que chamou atenção é A celebração (abaixo), tocante e dura HQ do moçambicano Rui Terneiro, toda em tons de azul piscina e branco, sobre dois viajantes na neve, que se deparam com uma estranha criatura e decidem desviar seu caminho até a vila mais próxima para avisar do acontecido. Sem sombra de dúvida, um dos grandes lançamentos do frutífero ano que recém acabou. “Gostei demais do livro do Rui , onde a estranheza permeia cada página. São escolhas onde não se separa o visual da linguagem escrita.”

    E ainda Vá para o diabo (abaixo), do argentino Federico Lamas. “É um livro, digamos, silencioso, onde você acha que está vendo uma coisa e, na verdade, é outra. E o que não está ali escrito é o que faz toda a narrativa. São trabalhos onde você não desassocia a linguagem escrita da linguagem visual e isso me interessa muito, tanto na coisa que é silenciosa, como no que tem uma parte escrita. Isso sempre me interessou muito”, explica

    O mesmo vale para a literatura. O livro do Douglas A. Martin, por exemplo, Seu corpo figurado, o primeiro a ser editado pela casa, em parceria com a editora mineira Autêntica, se insere na vida de alguns artistas e coloca o leitor dentro do texto a todo o momento. “E você não sabe, não tem como categorizar como prosa, poema, essa questão do gênero. Essa não-categorização, essa dificuldade em você definir me atrai. Acho muito desinteressante estas definições, essa coisa de estante de livraria, uma necessidade de se controlar essas movimentações artísticas. É uma das coisas que tenho terror. Acho falta de educação com o trabalho.”

    No final do ano passado e começo deste 2012, saíram ao todo os sete livros planejados. “Estou impressionada que o planejamento tenha dado certo. Estimei que fossem sair sete livros e eles saíram. Como mineira, fico olhando assim desconfiada, né?”, comenta. Entre os outros lançamentos, estão Je Nathanaël, da escritora norte-americana Nathanaël, e Incubação: um espaço para monstros, de Bhanu Kapil, inglesa de pais indianos e escritora que leciona na Universidade de Naropa (Colorado), na Jack Kerouac School of Disembodied Poetics. “Nem poema nem ensaio nem romance nem sex show. O que Je Nathanaël retira da linguagem restitui ao corpo. O texto sobre o personagem homônimo de outro imaginado por André Gide, explora maneiras pelos quais a linguagem limita o corpo, aprisiona-o em gênero, e propõe um modo de leitura distinto, no qual as palavras são hermafroditas”, diz a apresentação do romance. JáIncubação traz a ciborgue Laloo, que ao longo do texto vai se mesclando à narradora. Os dois compõem, junto com o livro de Martin, a coleção Just a Bubble, dedicada a esta nova literatura que não se encaixa nos tradicionais escaninhos das livrarias. “Não existe separação entre a linguagem e o corpo”, disse Rachel em entrevista ao jornal O Tempo sobre a ideia da coleção.

    Essa busca por fundir linguagem e corpo é o que impulsionou outro iniciativa d’ A Bolha, de publicar nos Estados Unidos a escritora Brasil que talvez melhor traduza essa intenção, Hilda Hilst. “Como parte do projeto ‘obá obá’, que visa combater a inexistência da literatura brasileira na América do Norte, vamos publicar em coedição com a Nighboat Books, a tradução para o inglês de A obscena Senhora D., de Hilda Hilst, que conta com o apoio e amor do Programa de Apoio à Tradução de Autores Brasileiros 2010, da Fundação da Biblioteca Nacional. O livro se encontra em fase de tradução e será lançado em Nova York em setembro de 2012. Cartas de um sedutorFluxo-Floema, também de autoria de Hilda, serão os próximos”, informa uma nota no site da editora. A tradução é de Nathanaël, que falou sobre a escritora paulista em entrevista a O Tempo:

    “Hilst, para mim, é uma escritora que realmente escreve o corpo – em vez de ser como a maioria, que teoriza sobre a escrita do corpo, permanecendo enquadrada em categorias fixas. Hilst é imprudente, crua, elegante, prejudicada e maligna. [...] O trabalho dela, para mim, vai além de trabalhos como os de [Clarice] Lispector, que é, ou foi, muito popular nos EUA e na França. Meu primeiro pensamento, depois de ler Hilst, foi que isso era um erro mortal. Por mais que gostasse de A hora da estrela, ele não se arrisca, e nem me levou a me arriscar como leitora, da forma que Hilst o faz”.

    2012

    Para este ano, Rachel já tem definida alguns lançamentos, como a única narrativa visual feita por Marc Bell,Shrimpy and Paul and friends. Outro lançamento é de uma artista visual norte-americana Heather Benjamim, que faz uma série chamada Sad People Sex, um manuscrito inédito, a primeira publicação dela lançada não só no Brasil, mas também nos EUA. Além do segundo volume de Powr Mastrs e de 0-800-Ratos e outros ainda em fase de negociação. “Vou lançar também a autora da série lançada pela Conrad, Mumin, Tove Jansson. Ela é também escritora e o Guilherme Braga está traduzindo A traidora honrada. Vamos publicar ainda Gigantes do jazz, do historiador oral Studs Terkel. E estou traduzindo My Paris, da escritora canadense Gail Scott. E tem as surpresas que sempre podem aparecer”, acrescenta. Entre as surpresas anunciadas no blog da editora em janeiro http://abolhaeditora.com.br/blog/lancamentos/lancamentos-2012/, estão Ice fuckers, do francês Frédéric Fleury, The Asshole, do norte-americano Gary Panter, e Caminhando com Samuel, do finlandês Tommi Musturi.

    Embora uma das preocupações que ela tinha em mente era não imitar e mimetizar algo que já existisse lá fora, algumas editoras e lojas serviram de referência e inspiração, como a Picture Box e a Ugly Duckling. “Se a editora não tem uma personalidade própria, se torna mais uma. Acho desinteressante começar assim, embora se faça muito isso: vê uma coisa lá fora e tenta trazer aqui pra dentro no mesmo formato. Eu não queria isso de jeito nenhum. Mas, ao mesmo tempo, você começa a ver espaços alternativos de publicação. Pessoas que vão, que gostam de fazer, de respeitar aquilo mais ainda pelo fato de estar muito proximo dela, de várias maneiras.”

    Na Picture Box , por exemplo, lhe chamou a atenção o trabalho de Dan Nadel, que tem um contato direto com os autores e uma extrema paixão no que faz. “Me deu muita esperança de poder fazer uma coisa minha com uma identidade diferente, e aqui no Brasil. E você vai vendo uma série de outras editoras independentes nos Estados Unidos. Não só as que lidam com banda desenhada e narrativa visual, mas principalmente as independentes de literatura. Com o mercado que os Estados Unidos têm hoje, onde o maior crescimento é de editoras independentes, você vê que sempre existe a possibilidade de abrir uma coisa nova. E nisso tudo obviamente que tem que arriscar. Mas sempre me pareceu que valeria muito a pena trazer esse tipo de coisa aqui pro Brasil”, afirma Rachel.

    A Ugly Duckling, outra inspiração, que lançou um livro do escritor suíço Robert Walser, Answer to a Inquiry, com ilustrações de Friese Undine, começou como um coletivo de escritores que se juntaram e resolveram criar uma editora, com um cuidado gráfico apurado. “Eles têm uma parte de tradução de autores russos forte, já que dois deles são russos. O estágio que fiz lá me deu muito dessa noção do que é preciso para abrir uma editora independente. Um trabalho bem artesanal, onde muitas vezes eu saía de carrinho no frio pelo Brooklin até o correio para levar os livros. Você não precisar ter uma infraestrutura mega, é até desinteressante que tenha, perde-se muito do sal.”

    Para Rachel, é uma editora que nasce pequena e o desafio é continuar pequena. “Não tenho o menor interesse que essa editora seja uma grande editora em tamanho. Esse tipo de formato não me interessa.”

     

    A mercearia

    A sede d’ A Bolha, no terraço da Fábrica Bhering, é um simpático espaço, com os livros gringos que ela revende em caixotes amarelos, algumas estantes, sofás e obras espalhadas pelas paredes do escritório. Quem deseja conher o aprazível lugar, no entanto, deve marcar com antencedência com Rachel, que muitos dias trabalha de casa.

    Procurar pelo disponibiliza para a venda é uma satisfação, segundo ela. “Tenho um prazer enorme em pesquisar, gosto muito. O contato, na maior parte da vezes, é direto com os autores, ou então com as editoras. Na maioria, são editoras independentes, pequenas. Tirando a Fantagraphics, que é uma grande editora dentro dessa universo dos independentes e ainda mantém uma estrutura similar. É meter a mão na massa. Lidar com o conteúdo é a parte mais difícil e a mais interessante. Hoje em dia, a grande parte dos editores são administradores. Possa estar errada, mas me parece que cada vez menos há a interação pessoal com aquilo que você está lidando e colocando para o público.”

    Da editora norte-americana Fantagraphics, ela compra dos distribuidores, que mandam os livros para a casa do irmão de Rachel no Brooklin e ela despacha para cá. “É tudo legal, temos a papelada para exportar, importar. Mas não compro muito, às vezes entre 10 e 15 exemplares. Quando é narrativa silenciosa, compro mais. Mas tem livros aqui que tenho três, cinco exemplares. O contato é direto com as editoras, conhecemos o trabalho um do outro e nos apoiamos.  Ou ainda diretamente com os autores. O Tommi Musturi, autor deCaminhando com Samuel, uma edição portuguesa da Chili com Carne, por exemplo, tem uma editora que se chama Kutikuti e é muito boa. Você vai conhecendo o trabalho de muita gente comprando coisas para vender aqui. Às vezes isso gera um relacionamento e um diálogo para começar a editar algo. Agora acabei de descobrir um pessoal na República Tcheca e eles até perguntam: ‘Mas como é que você descobriu a gente aqui?’ Um leva a outro e a outro e assim vai”, acrescenta ela.

    Entre outras editoras que se encaixam no perfil acima mencionado por Rachel, está a Land Fill, onde a maior parte dos editores são também autores de uma série de publicações, não só em suas próprias editoras como em outras também, o que gera este interesse espontâneo. Com o Rui Terneiro, o autor de A celebração, foi assim. “Entrei em contato porque ele tinha uma editora chamada Soy Friends na Suécia e eu queria comprar algumas coisas. Mas o Rui tinha pouca coisa pra vender e ia ficar muito caro pra trazer. Fui apresentado ao trabalho dele e ele me perguntou se eu conhecia alguma editora para publicá-lo. Conheço, eu mesma! E aí editamos A celebração, a primeira vez em que ele foi editada na língua nativa, já que ele é moçambicano. Ele mesmo se traduziu e é uma parceria. Já que não tenho como dar adiantamento, dou mais cópias do livro. E o pessoal quer ser é publicado. Ele já tinha sido traduzido e publicado na Espanha, França, Noruega e Finlândia. O trabalho dele é extraordinário, ele tem essas linguagens dentro da linguagem, a cor. E é parceiro. Acho que o mais legal disso tudo são os encontros”, resume.

    Caso semelhante aconteceu com o argentino Federico Lamas, que ela foi conhecer apenas quando ele veio ao Rio para lançar Vá para o diabo. “Tinha visto uma edição em inglês do livro dele e queria comprar alguns exemplares para vender, mas estava esgotado e ele estava procurando uma editora para lançar aqui no Brasil. A ideia é agregar, fazer as coisas juntos. É importante o trabalho dessas editoras independentes, elas podem ajudar a reformular o espaço que se tem no mercado editorial.”

    Fábrica Bhering

    Sobre a descoberta do incrível espaço na antiga fábrica de chocolate, Rachel conta como se sucedeu. “Vim ao Rio em novembro de 2010. No avião, saindo daqui vi na capa da Revista de Domingo, d’O Globo, a matéria ‘Fábrica de artes’, sobre o espaço. Na volta ao Rio, do aeroporto vim direto pra cá. O Luiz, que administra o local, estava me mostrando o espaço e chegamos no terraço, onde tinha duas casas que eram um centro para pombos, verdadeiros pombais, bem destruídas. Estava em dúvida ainda entre São Paulo ou Rio de Janeiro. Aí falei: ‘É aqui!’ Comecei a conversar com o mestre de obras que, por acaso estava aqui naquela hora. E tinha que resolver tudo muito rápido, pois estava indo para os Estados Unidos logo em seguida, onde ia ficar dois meses. Antes mesmo de ter um apartamento no Rio, já tinha o local d’A Bolha definido. O que me atraiu muito foi o fato de ser uma fábrica ocupada por artistas. Pois como não conhecia ninguém aqui, já cheguei conhecendo pessoas com afinidades semelhantes. Uma pequena editora no terraço de uma fábrica de chocolate desativada. Não tem coisa melhor, o que eu quero mais?”, recorda.

    A Bolha está caminhando. Nem muito rapidamente, nem muito lentamente, mas da maneira que tem que caminhar, acredita a sua fundadora. A ideia para o futuro é se tornar um coletivo que possa apresentar mais coisas, reunir interesses comuns. Porém, isso só mais pra frente. Muita gente manda ideias, originais, manuscritos, mas no momento Rachel não tem capacidade física de responder a todos. “Até o primeiro semestre de 2013 estou comprometida. Já tenho o cronograma para 2012, com sete, oito títulos. Para uma editora que é pequena, sete livros ao ano, se você for pensar, para quem faz sozinho, é bastante coisa.”

    Rachel finaliza reforçando a ideia do que deseja para A Bolha nos próximos anos. “Preciso cuidar de tudo, botar em prática as minhas ideias. Isso que me interessa no meu trabalho como editora. Todo o processo. Isso que quero. Por isso que digo que vou me manter pequena, para poder acompanhar sempre todo o processo.” Pequenas e ousadas editoras como esta realizam um trabalho importantíssimo ao sair do marasmo e dos lugares comuns da arte e cultura pasteurizadas que dominam o cenário. São fundamentais ao semearem a bibliodiversidade. Que sirvam de inspiração a quem deseja trabalhar fazendo livros.


     

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  • No Ar | O blog d’ A Bolha

    Postado em: Notícias | Data: 22 jan 2012 | Autor: admin

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  • no estudio com Gary Panter

    Postado em: Entrevistas | Data: 20 jan 2012 | Autor: admin

entrevista com artista norte-americano Gary Panter em seu estúdio no brooklyn, em nova york. Pioneiro do ‘punk graphics’, Panter foi diretor de arte do show Pee-wee’s Playhouse e publicou trabalhos brilhantes como ‘Jimbo: Adventures in Paradise’, ‘Cola Madness’ e o pequeno notável ‘The Asshole’ – que será publicado no brasil pela A Bolha com tradução de Daniel Pellizzari.

Em seu estúdio ele faz desenhos, pinturas, esculturas, comics e é conhecido por seu talento no churrasco e por gostar de shows de luz, música psicodélica e literatura pós-moderna.

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  • Lançamentos | 2012

    Postado em: Lançamentos | Data: 19 jan 2012 | Autor: admin

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  • Livraria da Folha | Coleção Just a Bubble

    Postado em: Notícias | Data: 10 jan 2012 | Autor: admin

    por Felipe Jordani

    Os autores da coleção “Just a Bubble” nunca frequentaram a lista do “New York Times” ou fecharam contratos milionários com grandes editoras. Em uma atitude rara no mercado editorial brasileiro, a editora mineira Autêntica, em parceria com a editora A Bolha, aposta em escritores alternativos e contemporâneos dos Estados Unidos e vizinhança, que privilegiam a arte em lugar de um formato mais pasteurizado. A iniciativa tem início com três títulos diferentes, marcados pela originalidade e pela variedade de gêneros literários.


    “Seu Corpo Figurado”
    , de Douglas A. Martin, é provavelmente o mais convencional dos volumes. A obra reúne três narrativas que contam, de forma romanceada, momentos de gênese da vida de três artistas relativamente conhecidos, os dois pintores Balthus (enteado do poeta Rainer Maria Rilke) e Francis Bacon e o poeta Hart Crane.

    O modo delicado e cheio de lirismo de narrar utilizado por Martin chama a atenção. A pessoa verbal escolhida por ele faz do leitor o próprio personagem retratado. “Ela está caminhando ao redor do parque. / Está admirando os cisnes junto com Rilke. / Você está ali na beira colhendo cardos ou coisa parecida com as mãos. / Algo desliza pela água e o sol oscila. / Algo começa a se realçar dentro de você.”, diz um trecho do conto “Balthus”.

    Sensual e cheio de potência, “Je Nathanaël”, da escritora Nathalie Stephens (aqui como Nathanaël), resgata o personagem homônimo criado pelo escritor francês André Gide, para explorar os limites entre o corpo e a linguagem. Por meio da prosa e da poesia, a autora procura uma expressão que escape das prisões que a língua impõe aos gêneros feminino e masculino.

    Embora a proposta pareça ousada, a artista sabe executá-la com bom humor e sem burocracia. “Meu querido Nathanaël, não te escreverei. Todo dia trago seu nome a minha boca. Trago-o e após o devolvo. Gostaria de habitá-lo como você o habita. Saber como é pertencer a ninguém. Como é não existir. Ou existir infinitamente. Canso-me de pensar o corpo de outra forma senão procurando a palavra certa para descrever aquilo que pertence nem à linguagem e nem ao silêncio. Você tem razão ao não responder. De seguir calmamente no seu caminho. Quanto a mim, corro e nada encontro. Gostaria de lhe falar sobre o vão entre o verbo e a palavra. Entre o toque e o respiro. Entre a pele e a carne. Sou um pouco como você, tampouco existo. Seu eu disser eu sou minto um pouquinho. Por viver assim virei inimigo das línguas. Desconfio dos livros por causa dos barulhos que fazem. Você sabe cultivar o silêncio”, escreve a artista no texto que introduz o volume.

    Mais experimental e fragmentado, o título “Incubação: Um Espaço para Monstros” ilustra a tentativa da escritora e poeta Bhanu Kapil de dar vida a uma ciborgue chamada Laloo. Ao longo do livro, a personalidade da narradora-autora –a qual resgata inúmeros episódios de sua vida– se funde com a da criatura. A obra é formada por capítulos com nomes irreverentes como “Guia de Laloo para viajar de Carona”, “Prefácio manuscrito para reverter o livro” e “Algumas informações autobiográficas sobre ciborgues”.

    O texto é bastante marcado pelo fato da autora ser nascida no Reino Unido, filha de pais indianos, e ter imigrado para os Estados Unidos. Bhanu termina por assumir ela própria, assim como sua ciborgue com relação à humanidade, o papel de “outsider”.

    “Algo dói. São 7 da noite quando ela toma o rumo da rodovia. Estas são coisas que sinto a respeito de ciborgues a distância, como se acontecessem comigo. Sinto, por exemplo, a escarlatina de Laloo, a cor vermelho-escura inundando os pontos de junção. Algo muito natural se espalha pelo corpo dela como um mecanismo de cura rápida: o sangue coagulando no momento certo, o cabelo voltando a crescer mais grosso e escuro que antes, mas numa velocidade anormal.”, diz um fragmento do subcapítulo “Plano B”.

     

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  • entrevista Nathanaël

    Postado em: Entrevistas | Data: 28 dez 2011 | Autor: admin

    foto: Nathaniel Feis/2011

     

    entrevista de Luciana RomagnolliJornal O Tempo 24/12/11

     

    “Eu quero o que nenhuma linguagem contém”. Com essa frase, a escritora canadense Nathanäel, radicada nos Estados Unidos, define a si mesma em seu blog (polysemique.blogspot.com).

     

    Professora da Escola do Instituto de Arte de Chicago, já premiada pela Academia de Letras de Quebéc, ela deixou para trás o nome de batismo, Nathalie Stephens, e adotou aquele que intitula seu livro, “Je Nathanaël”, inspirado em um personagem do escritor francês André Gide (1869-1951). Na entrevista abaixo, ela defende a obra de Hilda Hilst, de quem é tradutora, e comenta relações entre corpo e linguagem.

     

    Você está trabalhando em uma tradução de “A Obscena Senhora D”, de Hilda Hilst. O que lhe interessa na literatura de Hilst? Você vê afinidades com a sua literatura?

    Hilst, para mim, é uma escritora que realmente escreve o corpo – em vez de ser como a maioria, que teoriza sobre a escrita do corpo, permanecendo enquadrada em categorias fixas. Hilst é imprudente, crua, elegante, prejudicada e maligna. Na primeira vez que li o “A Obscena Senhora D”, havia passado muito tempo sem ler livros. Sou uma leitora impaciente e, como resultado, leio pouco. Contudo, me pareceu que eu poderia ler aquele livro pelo resto da vida, e que Hilst parecia estar fazendo algo que os outros apenas diziam que estavam fazendo. O trabalho dela, para mim, vai além de trabalhos como os de (Clarice) Lispector, que é, ou foi, muito popular nos EUA e na França. Meu primeiro pensamento, depois de ler Hilst, foi que isso era um erro mortal. Por mais que gostasse de “A Hora da Estrela”, ele não se arrisca, e nem me levou a me arriscar como leitora, da forma que Hilst o faz. Com relação a afinidades entre nossos trabalhos, seria muita presunção da minha parte afirmar isso. Sou uma grande admiradora de seu trabalho.

     

    A certa altura do livro “Je Nathanaël”, você escreve que “o corpo humano passa por uma crise” e “o sexo está mergulhado no hermafroditismo”. Bem, o livro parece trabalhar na tensão entre corpo e linguagem, arte e desejo. Esses conceitos estão em crise?

    Espero que estejam. Esses sentidos continuam a ser suprimidos pelos discursos na América do Norte. Isso se aplica até mesmo àqueles que dizem desafiar o controle dos sentidos pelas estruturas acadêmicas e corporativas. Quando escrevi “Je Nathanaël”, o que já faz dez anos, essa crise, para mim, era mais articulável a partir da noção de traduzibilidade, que carrega uma relação discutível com o hermafroditismo (em que a sobreposição e o rompimento de corpos e linguagens claramente delineados provoca estados desagregados com a marca do desejo). Isso refuta qualquer possibilidade de origem. “Je Nathanaël” não pode reivindicar para si nenhuma origem, pois o texto surgiu de ao menos duas línguas de uma só vez – francês e inglês. Isso sem falar da ausência de um corpo que está sempre à beira de constituir a si mesmo. Essa crise serve como uma salvaguarda para um tipo de vigilância sensorial, que nós exterminamos, por uma morte sistemática dos sentidos e desejos.

     

    Rachel Gontijo Araujo, editora d’ A Bolha, disse que você “desafia a linguagem enquanto corpo”. Pensando naquelas tensões mencionadas antes, você poderia dizer o que significa, para você, tratar a literatura como fisicalidade?

    A banalidade gritante da divisão cartesiana entre corpo e mente pode ser instrutiva aqui; muitos dos chamados pensadores “pós-estruturalistas” resistem à noção de linguagem como algo acidental, um a priori da sensibilidade. Claro, eu discordo enfaticamente desse tipo de interpretação simplista que, para mim, é como um extermínio do pensamento. Mas não sou alinhada a nenhuma escola de pensamento ou tendência filosófica ou poética. Temo qualquer tipo de adoção de sistemas e prefiro algo mais desengajado e aleatório. Isso significa que, cada vez, é preciso encontrar um caminho para o corpo na linguagem. O que posso dizer do sentido físico de um texto é melhor respondido pelo próprio texto.

     

    Como essa fisicalidade se relaciona com a pontuação (por exemplo, a ausência de vírgulas) e com o modo como você arranja o texto em cada página de “Je Nathanaël”?

    A quebra da autoridade sintática acompanha o desmembramento do corpo com “gênero” e “sexo” no texto. “Je Nathanaël” é um texto muito diferente em inglês e em francês. E estou curiosa para saber o que acontece com o texto em português e em búlgaro – as outras duas línguas para as quais foi traduzido. Línguas românicas são tão determinadas pelo gênero que iniciar esse trabalho de hermafroditizar o francês (um dos impulsos iniciais de todo o projeto) exigiu uma ação violenta contra as estruturas gramaticais francesas. Isso significou aniquilar o sujeito, como na seção com ausência de pronomes. Entretanto, em inglês, acontece algo mais. Como a língua inglesa é menos marcada pelo gênero, outras estratégias precisaram ser empregadas.

     

    Em termos gerais, quão bem o sexo é representado na literatura norte-americana?

    Minha bagagem literária norte-americana é pequena – além disso, não sei dizer muito bem o que é, de fato, a literatura norte-americana. Nem sei dizer se isso realmente existe, há muitos americanos. Ainda assim, sinto que as literaturas norte-americana e canadense, apesar de não serem equivalentes ou intercambiáveis, sofrem de uma tensão entre obscenidade púdica e exibicionista. Nos Estados Unidos, se não estamos ocupados culpando o corpo por seus excessos, estamos querendo revolucioná-lo. Cada extremidade parece perdida em um paradoxo de dependência. Prefiro não pensar sobre isso.

     

    Aposto que você não gosta de responder essa pergunta, mas conte-nos: quem é Nathanël?

    Tem razão, detesto responder essa pergunta. Afinal, a resposta está sempre mudando. Quem Nathanaël era em 2003, 2006 e é, agora, em 2011, é diferente novamente e novamente. Ele começou como um personagem não-realizado de “Les Nourritures Terrestres”, de André Gide. Ele entrou em mim como uma tradução. Ele pertenceu a ninguém, certamente não ao livro. Então, quem pode dizer? Nathanaël é um nome frequentemente impronunciável.

     

    Je Nathanaël

    R$31

    tradução Thiago Gomide Nasser

    88 páginas

    2011


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  • Jornal O Tempo | Por uma literatura da carne

    Postado em: Notícias | Data: 24 dez 2011 | Autor: admin

    por Luciana Romagnolli

    Fora dos círculos usuais pelos quais se move o mercado editorial brasileiro quando elege obras de autores norte-americanos para tradução e publicação, a editora Rachel Gontijo, da A Bolha, conheceu escritores que “não têm medo da carne”.
    Ela viveu por três anos nos Estados Unidos e, enquanto fazia seu mestrado em escrita no Instituto de Arte de Chicago, se interessou pela literatura independente de Nathanaël, Banhu Kapil e Douglas A. Martin, os três primeiros autores que publica no país pela recém-criada coleção Just a Bubble.

    “Tive contato com uma série de escritores que saem de uma certa obviedade do que chamamos de literatura e vi que existia uma carência no Brasil, faltava um pouco mais de ousadia no mercado editorial”, comenta. Sua reação foi procurar Rejane Dias, editora da Autêntica, sediada em Belo Horizonte, e propor uma parceria para coedição desse universo experimental, guiando-se por escolhas editoriais assumidamente subjetivas. “São autores que arriscam a linguagem enquanto corpo – ou, como a Hilda Hilst fala, ‘a carne é que sente’”.

    O trio que a coleção Just a Bubble ora apresenta aos leitores brasileiros se situa na faixa dos 30 a 40 anos, vive em partes diversas dos Estados Unidos e não tem uma literatura uniforme. Suas escritas resistem a classificações de gênero – sobretudo porque desconstroem essas noções de gênero, tanto o literário (sem distinção cabal entre prosa e poesia) quanto o identitário (homem ou mulher). Trabalham na tensão entre corpo e linguagem, arte e desejo.

    “São justamente essas as questões”, assente Rachel. “Não existe separação entre a linguagem e o corpo. A gente a trata com um tom intelectualizante, que acaba separando a percepção da linguagem do próprio corpo, mas a linguagem é física, é desejo, é visceral. É muito bonita essa desconstrução das pré-concepções e não ter medo da bagunça que o corpo é”, diz.

    Se a explicação parece muito abstrata, a editora esclarece com “o maior exemplo desse tipo de linguagem” na literatura brasileira: Hilda Hilst. Não é à toa que a Bolha planeja lançar obras da brasileira nos Estados Unidos (leia mais abaixo).

    Presenças. Em “Seu Corpo Figurado”, Douglas A . Martin faz prosa poética em cima da biografia de três artistas: o poeta Hart Crane (1899-1932) e os pintores Balthus (1908-2001) e Francis Bacon (1909-1992). Nascido na Geórgia, e professor na New School, em Nova York, ele dialoga com essas vidas por uma via de sensibilidade e inclui o leitor na narrativa, ao chamá-lo de “você”. “Todos esses livros requerem uma presença do leitor muito maior”, comenta Rachel.
    Por sua vez, a autora de “Incubação”, Banhu Kapil, mora no Colorado (onde leciona na Jack Kerouac School of Disembodied Poetics), mas veio do Reino Unido e é filha de indianos. Seu ponto forte é a irreverência.

    “Ela fala do corpo enquanto imigrante, são coisas pesadas, mas escritas com certa leveza, que ajuda o leitor a habitar o texto de maneira que ele acaba sendo agradado. E ela brinca com a linguagem como pouco já vi, brinca também com as formas e com o sistema”, diz Rachel.
    Assim como a franco-canadense Nathanaël (leia entrevista na página 3), radicada em Chicago, esses autores incorporam uma noção de fisicalidade também no modo como distribuem o texto nas páginas. “Existe uma cadência e um som próprio que são criados ali. Você acaba respirando essa cadência e entrando no texto de uma maneira diferente”, diz a editora da Bolha.

    Hilda Hilst será lançada nos EUA

    A Bolha vai lançar parte da obra de Hilda Hilst nos Estados Unidos, em coedição com a Nighboat Books. O primeiro título está previsto para setembro de 2012. Trata-se de “A Obscena Senhora D”, romance escrito em 1982, sobre o qual a editora Rachel Gontijo se detém, no momento, fazendo a última revisão técnica. Ela assina a tradução, em parceria justamente com Nathanaël.
    Para 2013, as editoras planejam publicar “Cartas de um Sedutor”, de 1991, com tradução de John Keene. No ano seguinte, deve sair “Fluxo-Floema”, livro com o qual a escritora estreou, em 1970.

    O plano é começar a abrir o mercado norte-americano aos autores daqui. “A literatura brasileira é quase invisível na América do Norte, tirando aqueles nomes de sempre, como Clarice Lispector e alguns que nem valem a pena ser mencionados. Acho que não existe melhor abre-alas para essa abertura”, diz Rachel. (LR)

     

     

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  • COLEÇÃO JUST A BUBBLE | Douglas A. Martin, Nathanaël, Bhanu Kapil

    Postado em: Lançamentos | Data: 15 dez 2011 | Autor: admin

    Seu corpo figuradoJe NathanaëlIncubação Um espaço para monstros

    A coleção Just a Bubble faz uma ponte, desgarrada dos gostos tradicionais, entre a literatura independente norte-americana e a brasileira. Os primeiros livros da coleção acabam de ser lançados. São eles: Seu corpo figurado, de Douglas A. Martin, Je Nathanaël, de Nathanaël, e Incubação  Um espaço para monstros, de Bhanu Kapil. Para 2012, estão previstos Minha Paris (My Paris), de Gail Scott, e A traidora honrada (The true Deceiver), de Tove Jansson. Literatura para arrebentar sua gramática!

     

     

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  • O Globo | Rui Tenreiro

    Postado em: Entrevistas» Notícias | Data: 12 dez 2011 | Autor: admin

    De Moçambique para o Brasil, via Suécia

    por Telio Navega

     

    Ao toparem com uma imensa e desconhecida criatura morta em seu caminho, dois andarilhos carecas, aparentemente iguais, mas diferentes (um deles usa cachecol), interrompem a viagem para comunicar o acontecido aos habitantes da aldeia mais próxima. A partir daí muita coisa estranha começa a acontecer na atraente história em quadrinhos “A celebração” (A Bolha Editora, cor, 108 pgs., R$ 39.90), escrita e ilustrada por Rui Tenreiro, que nasceu e cresceu em Maputo, Moçambique, e hoje vive em Estocolmo, Suécia.

    Influenciado por nomes tão diferentes entre si como Aki Kaurismäki, Hayao Miyazaki, Akira Kurosawa, Pieter Bruegel e Moebius, Tenreiro conta que a ideia do álbum – que tem “participação especial” de Antoine de Saint-Exupéry em algumas páginas – surgiu a partir de sonhos que teve e de músicas que ouviu. O resultado é bem diferente do que estamos acostumados a ver nos quadrinhos publicados no Brasil, e não revela o país do autor, muito menos aquele que ele escolheu para morar.

    A Escandinávia foi um choque cultural – explica o autor moçambicano. – A Suécia é quase o oposto de Moçambique. No entanto, a primeira vez que saí da África foi para viver em Portugal. Pensava que seria fácil, pelo português ser a minha língua materna, mas o choque cultural foi bastante grande.

    Segundo Tenreiro, a cena profissional de quadrinhos (chamados de quadradrinhos por lá) em seu país de origem serve, em sua maioria, mais como uma ferramenta educativa, no campo da política ou da saúde. Não há mercado para álbuns de ficção. Diferentemente da Suécia:

    Aqui os quadradinhos são mais voltados para a sociedade e a sexualidade. E são frequentemente autobiográficos e realistas. Há também muito mais mulheres desenhistas aqui na Suécia, o que enriquece o panorama cultural. Na Suécia há muito mais dinheiro para a cultura. Em Moçambique, as artes são tidas como última prioridade num país extremamente pobre, o que é compreensível. Mesmo assim, penso que existe uma visível falta de interesse em artes e cultura por parte do governo atual.

    Detalhe de “Lanternas de Nedzu”

    Depois de “A celebração”, Tenreiro publicou um livro chamado “Museu”, em que ele diz ter trabalhado, como nos jornais antigos, com o espaço da página da mesma forma que os designers do final do século XIX e início do século XX faziam.

    - Atualmente estou desenhando ”Lanternas de Nedzu” – revela o ilustrador, que acaba de concluir um mestrado na universidade de Konstfack, em Estocolmo. - É um romance e uma história de terror sobre um homem que se apaixona por um caranguejo. Apresenta uma mistura de elementos japoneses com finlandeses (como o festejo do Bon e do Kekri). O livro terá trilha sonora, composta por Tiago Correia-Paulo.

     

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  • UNIVERSO HQ | A Bolha Editora aposta em quadrinhos independentes de diversos países

    Postado em: Notícias | Data: 8 dez 2011 | Autor: admin

    por Sidney Gusman

     

    Durante a segunda edição da Rio Comicon, ocupando uma pequena mesa fora do pátio principal do evento, a brasiliense Rachel Gontijo convidava os presentes a conhecer as publicações de sua recém-lançada editora, A Bolha.

    Sobre a mesa, nenhum título conhecido do grande público. Isso porque a proposta da editora é publicar material independente de vários países – inclusive alguns com pouca tradição nos quadrinhos, como Moçambique.

    É do país africano que vem A Celebração (104 páginas, R$ 39,90), de Rui Tenreiro. A trama mostra dois personagens sem nome que se aventuram por um mundo de estranhas criaturas e nem imaginam o quanto isso mudará suas vidas.

    Já Powr Mastrs – Volume 1 (120 páginas, R$ 36,00) é o primeiro livro de C.F, como assina o norte-americano Chris Fogues, apontado pelo The Comics Reporter como um cartunista a ser observado, pelo seu ritmo furioso de trabalho. A trama mostra uma tribo de guerreiros místicos em que as relações de poder estão em constante fluxo. A série está prevista para seis álbuns.

    O terceiro título da editora é 0-800-Ratos (24 páginas, R$ 12,00), do norte-americano Matthew Thurber. A obra explora o mundo de Volcano Park e seus residentes: punks da paz, ratos mensageiros e pessoas-árvores, com uma levada, no mínimo, surreal.

    Quem fecha este primeiro pacote de lançamento da editora é o argentino Federico Lamas, com Vá para o Diabo (48 páginas, R$ 35,00). Trata-se de uma compilação de ilustrações apresentadas em forma de scrapbook que são uma coisa a olho nu e outra quando se está no uso do “visor infernal”, que vem grátis na compra do álbum.

    Todos os títulos estão à venda no site oficial d’A Bolha. Além disso, a editora tem em sua loja virtual mais de cem títulos de quadrinhos, fanzines e livros.

    Em entrevista para o jornal Correio Braziliense, Rachel Gontijo disse que, por enquanto, o retorno tem chegado mais na forma de reconhecimento pela iniciativa do que em número de vendas, mas que seguirá firme com o projeto, pois A Bolha é um projeto de vida.

     

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